Desde que ferramentas de IA generativa ficaram acessíveis, a pergunta que mais recebo de empresários que participam de licitações é sempre uma variação da mesma coisa: “posso colar o edital inteiro numa IA e ela me diz se posso participar?” A resposta curta é: a IA pode acelerar essa leitura como nenhuma ferramenta antes conseguiu — mas não pode, e não deve, decidir por você.

Ler um edital com o método necessário sempre foi o gargalo mais silencioso da Fase 2 (Inteligência) da jornada que ensino na Mestria em Licitações. Um edital de média complexidade pode ter dezenas ou centenas de páginas entre corpo do edital, anexos técnicos, minuta de contrato e termo de referência — e cada exigência de habilitação, cada prazo, cada detalhe de apresentação de documento pode ser motivo de desclassificação se passar despercebido. É trabalho que consome horas de um profissional qualificado, ainda que ele saiba exatamente o que procurar.

É exatamente nesse ponto que a IA se tornou, de fato, útil: onde antes eram horas de leitura linha por linha, hoje uma IA bem orientada consegue extrair em minutos o essencial — prazos, documentos exigidos, valor estimado, exigências técnicas, cláusulas que merecem atenção redobrada. Isso é ganho real de tempo, não promessa vazia de tecnologia.

O risco aparece exatamente onde a conveniência é maior. Como a IA responde com a mesma confiança para uma pergunta factual (“qual o prazo de entrega?”) e para uma pergunta de interpretação jurídica (“essa exigência de patrimônio líquido é razoável ou é restritiva demais?”, “posso participar em consórcio?”, “essa cláusula é impugnável?”), fica fácil tratar as duas respostas como se tivessem o mesmo peso. Não têm. A primeira é extração de dado. A segunda é decisão jurídica e estratégica — e decisão tem responsável, tem consequência, tem assinatura embaixo. A IA não assume nenhuma das três coisas.

Terceirizar esse segundo tipo de resposta para uma ferramenta que não conhece a jurisprudência específica daquele órgão, não tem responsabilidade civil pelo erro e nunca vai defender a empresa numa impugnação é confundir velocidade com segurança. A empresa que faz isso não elimina o risco jurídico da leitura do edital — só o esconde atrás de uma resposta que parece definitiva.

Fundei a Alencar Comércio de Soluções em 11 de setembro de 2024, e a tecnologia sempre teve um papel claro nessa jornada: acelerar a operação, nunca substituir o estudo e a decisão. Antes de participar da primeira disputa, me aprofundei na Lei nº 14.133/2021 e nas normas da PGR, além de cursos específicos — não larguei essa base para nenhuma ferramenta, por mais rápida que fosse. Comecei a disputar dispensas de licitação em novembro e dezembro de 2024, voltei a operar em janeiro de 2025 após o recesso, e conquistei a primeira vitória em 14 de fevereiro de 2025, numa dispensa para uma unidade da Marinha em Rio Grande, no Rio Grande do Sul.

Depois dessa primeira vitória, adquiri uma tecnologia que elevou as margens da empresa de muito apertadas para acima de 30% — um salto real, mensurável, que veio da tecnologia acelerando a parte operacional (cálculo, triagem, prospecção). Migrei de MEI para empresa de pequeno porte no Simples Nacional em abril de 2025, por ter estourado o limite de faturamento anual para a empresa MEI, e, entre setembro e outubro de 2025, a carteira já somava em torno de R$300 mil em contratos firmados com o governo — incluindo até convocações por desclassificação de concorrentes, o que reforça exatamente o ponto deste artigo: desclassificação por falha de leitura acontece com empresas reais, e vira oportunidade para quem leu certo.

Em nenhum momento dessa trajetória a tecnologia tomou a decisão de participar ou não de uma disputa. Ela acelerou a triagem. A decisão sempre foi apoiada em método e em estudo — meu, e da estrutura que fui construindo. Como escreve Ray Dalio em Princípios, “as pessoas certas trabalhando em equipes informatizadas são a chave para o sucesso” — a tecnologia entra como parte de uma equipe bem preparada, não como substituta dela.

Três formas seguras de usar IA na leitura de editais, sem terceirizar a parte que precisa continuar sendo humana:

Use a IA para extração e organização — prazos, documentos exigidos, valor estimado, garantias, forma de apresentação de proposta. É trabalho mecânico, repetitivo, e a IA faz isso rápido e bem, desde que você revise o resultado.

Use a IA para sinalizar pontos de atenção — cláusulas ambíguas, exigências que parecem restritivas, prazos apertados, anexos técnicos incomuns. A IA pode apontar onde olhar com mais cuidado. Ela não decide o que fazer com o que foi apontado.

Nunca decida sozinho, apoiado só na resposta de uma IA, se uma exigência é impugnável, se vale a pena assumir um risco jurídico específico, ou se sua empresa está apta a participar. Essa decisão pede leitura humana qualificada — jurídico próprio, parceiro especializado, ou o método estruturado das Fases 1 e 2 da Mestria em Licitações — porque é essa pessoa, não a IA, que vai responder pelas consequências.

A IA consegue devorar cem páginas de edital em segundos e devolver, organizado, o que levaria horas para um profissional extrair manualmente. Isso é avanço real, e eu mesmo uso tecnologia para isso todos os dias. O que nenhuma IA pode fazer é assumir a responsabilidade pela leitura jurídica final de um edital. Acelerar a triagem é eficiência. Terceirizar a decisão é risco disfarçado de modernidade.

Na sua empresa, hoje, quem é a pessoa responsável por dizer “sim, podemos participar desta licitação” — alguém com esse papel claramente definido, ou seja lá o que a IA respondeu na última consulta?

Rogério Alencar | Alencar Consultoria e Treinamento

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