Sua empresa já mapeou onde o clima pode te atingir — mas a infraestrutura que sustenta a operação aguenta o pico do fenômeno quando ele chegar?
Em 07/08, mostrei aqui os números do INPE e da NOAA sobre a alta probabilidade de um El Niño historicamente forte no segundo semestre de 2026 — a nota técnica conjunta INPE/INMET/Funceme/Censipam (19/06/2026) apontava mais de 95% de probabilidade de persistência até o início de 2027, com intensidade forte a muito forte (CPC/NOAA). Desde então, a estimativa só se reforçou: a atualização do INMET com base em dados da NOAA (14/08/2026) eleva a confiança para 95% de chance de um El Niño muito intenso e 69% de chance de ser o mais intenso desde 1950, podendo persistir até março de 2027. A tendência de fundo não mudou — chuvas acima da média no Sul, redução de precipitação no Norte e Nordeste, temperaturas acima da média em boa parte do país —, mas a confiança nesse cenário ficou maior.
Mapear risco, como tratei no artigo anterior, é o primeiro passo. Mas mapa nenhum protege uma empresa cuja infraestrutura de tecnologia — energia, conectividade, dados, comunicação — não aguenta o momento em que o risco vira evento real. E, antes de qualquer continuidade operacional, a prioridade não muda: preservar vidas. Infraestrutura de tecnologia bem preparada também é isso — é o que garante que a comunicação com a equipe, o acesso a informações de emergência e o contato com clientes e fornecedores continuem funcionando no momento em que essas informações mais importam para a segurança das pessoas envolvidas.
A maioria das empresas trata “infraestrutura de TI” como sinônimo de computador funcionando e internet no escritório. Isso é suficiente em condição normal. Não é suficiente quando falta energia numa região por dias, quando um fornecedor de conectividade cai numa área afetada, ou quando a equipe precisa operar remotamente porque o local físico ficou inacessível — situações que os próprios boletins oficiais já classificam como prováveis para o período de pico.
Essa lição sobre estrutura que aguenta o pico, e não só o dia comum, eu vivi de um jeito que marcou profundamente minha forma de pensar preparação.
Entre 2005 e 2010, servi no hospital de campanha da Marinha, no Corpo de Fuzileiros Navais. Até 2005, o protocolo de resgate em grandes emergências seguia uma lógica que hoje parece intuitiva, mas é limitada: concentrar todo o esforço e todo o recurso disponível para salvar uma única vida por vez. Depois do furacão Katrina, esse protocolo mudou. Passamos a adotar o START — um sistema de triagem que prioriza o uso dos recursos disponíveis para salvar o maior número possível de vidas, em vez de esgotá-los numa única frente. E essa mudança não ficou só no papel: começou ali um processo real de preparação das equipes nesse novo modelo, antes de qualquer evento exigir a resposta.
Esse preparo foi testado em 2010, no terremoto do Haiti. Segundo a ONU News (news.un.org), cerca de 230 mil pessoas morreram e mais de 1 milhão ficaram desabrigadas — o desastre também matou 102 funcionários da própria ONU em serviço no país. Já estávamos com equipes preparadas para atuar sob esse protocolo: enviamos equipes e recursos, e depois atuei pessoalmente na área do desastre, no resgate e no rescaldo. Fizemos mais do que responder ao evento — treinamos equipes nativas haitianas para que estivessem prontas para catástrofes futuras. O resultado foi uma capacidade de resposta muito superior à de quem chega para improvisar depois que o desastre já aconteceu.
A lição central não é sobre triagem médica — é sobre o momento em que a preparação acontece. Uma estrutura pensada para atender um evento inteiro, um caso por vez, quebra diante de uma demanda em escala. Uma estrutura pensada com prioridade — o que precisa continuar funcionando primeiro, com os recursos que existem — absorve o pico sem parar. Infraestrutura de tecnologia para o pico do El Niño pede exatamente essa mentalidade: decidir agora, com a empresa operando normalmente, o que é prioridade quando o recurso ficar limitado — não descobrir isso no meio do evento. (Como já mostrei aqui em 07/08, a falta desse preparo já me custou caro uma vez, num negócio que perdi para uma enchente sem plano de continuidade.)
Preparar a infraestrutura tecnológica para o pico do fenômeno significa aplicar a mesma lógica do protocolo START ao seu negócio: decidir agora, com calma, o que é prioridade quando o recurso ficar limitado — energia, conectividade, tempo de equipe. Na prática, isso significa classificar cada sistema da operação em três níveis e agir agora, enquanto a operação está estável, e não esperar o fenômeno se intensificar ainda mais ao longo do restante de 2026:
Prioridade 1 — não pode parar: os sistemas sem os quais a empresa não opera (ponto de venda, financeiro, câmara fria, comunicação com cliente). Para esses, garanta energia com nobreak ou gerador dimensionado para o tempo real de autonomia necessário, um link de internet alternativo (operadora ou tecnologia diferente da principal) e backup automático de dados em nuvem, fora do local físico da empresa.
Prioridade 2 — pode pausar por horas: sistemas importantes, mas que toleram uma interrupção curta sem quebrar a operação (relatórios internos, automações não urgentes). Para esses, o plano pode ser mais simples: procedimento manual temporário e prazo definido para retomada.
Prioridade 3 — pode esperar: tudo o que não compromete a operação essencial se ficar fora do ar por um dia ou dois.
Complete o quadro garantindo que a equipe essencial consiga acessar os sistemas de Prioridade 1 fora do escritório, com login e permissões já testados — não configurados às pressas no dia em que o acesso físico ficar impossível.
Nenhum desses pontos exige investimento alto. Exige antecedência — a mesma antecedência que separou uma resposta preparada de uma resposta improvisada no Haiti.
O motor calcula, a IA explica, mas quem decide continua sendo você — e a decisão que mais protege sua empresa é a que se toma antes de precisar dela. Preparar-se antes de o evento acontecer já molda o comportamento e as reações da equipe diante da pressão real — é o que evita que uma empresa fique perdida quando o pico chega, do mesmo jeito que uma equipe treinada não fica perdida diante de uma catástrofe. A estimativa mais recente do INMET/NOAA (14/08/2026) aponta 95% de chance de um El Niño muito intenso, podendo persistir até março de 2027; o tempo para classificar prioridades, testar energia, conectividade, backup e acesso remoto é agora, não quando o fenômeno já estiver no pico.
Este material tem caráter informativo e de apoio à preparação — não substitui alerta oficial em tempo real. Para informação atualizada sobre o cenário climático, acompanhe INPE (gov.br/inpe), INMET (portal.inmet.gov.br) e, na cidade do Rio de Janeiro, o Centro de Operações e Resiliência (cor.rio) e o Alerta Rio. Em emergência, acione Defesa Civil (199) ou Corpo de Bombeiros (193).
Para acompanhar de perto a evolução desse cenário e receber orientações práticas e atualizadas, siga o nosso Informativo Digital Vigia do El Niño, disponível em http://www.alencarconsultoria.com.
Sua empresa já testou se a infraestrutura de tecnologia aguenta uma semana sem energia estável na região? Fale comigo: rogealencar@gmail.com. E não deixe de acompanhar o Vigia do El Niño, no nosso blog.
Rogério Alencar — Alencar Consultoria e Treinamento
Fontes: Nota Técnica Conjunta El Niño 2026 — INPE/INMET/Funceme/Censipam, 19/06/2026 (gov.br/inpe: “Nota técnica conjunta aponta alta probabilidade de El Niño no segundo semestre de 2026”); atualização INMET/NOAA de 14/08/2026 — 95% de chance de El Niño muito intenso, 69% de chance de ser o mais intenso desde 1950, persistência até março/2027 (conforme divulgado em matéria da Metropoles, 17/08/2026). Balanço do terremoto do Haiti (2010): ONU News, “ONU marca 13 anos de terremoto que arrasou Haiti” (news.un.org/pt/story/2023/01/1807987). Artigo relacionado: “Super El Niño e continuidade de negócios” (07/08/2026, Alencar Consultoria).
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